Política

Lula e o Complexo de Felipão

Texto de Victor Oliveira

Luiz Felipe Scolari, o Felipão, comandou a inesquecível seleção brasileira de 2002 na conquista do pentacampeonato mundial. Com a linha de frente formada por Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e o artilheiro Ronaldo Fenômeno e um sistema defensivo consistente, trouxe a última conquista de Copa do Mundo para o nosso país.

No mesmo ano, Luiz Inácio Lula da Silva vencia a eleição presidencial, após três derrotas. Assumiu o governo com o desafio de gerar empregos e reduzir a fome e a miséria. Em seus 8 anos de governo, até 2010, conseguiu fazer as duas coisas. Encerrou seus mandatos com mais de 80% de popularidade e, de quebra, elegeu sua sucessora, a novata em eleições Dilma Rousseff, batendo o experientíssimo tucano José Serra.

Após a conquista do penta, Felipão deixou a Seleção Brasileira. Teve boa passagem pela seleção portuguesa, que dirigiu por 5 anos. Lá foi vice-campeão da Eurocopa 2004 e terceiro colocado na Copa da Alemanha em 2006. Após essa passagem, teve um período no Chelsea-ING, onde foi defenestrado pelos medalhões e no Azerbaijão. Acabou voltando ao Palmeiras, onde havia vencido a Libertadores de 1999, em 2010. No retorno, uma passagem com altos e baixos, que resultou em um improvável título da Copa do Brasil e um melancólico rebaixamento à Série B do Brasileirão, ambos em 2012.

Lula, após passar o governo para Dilma, passou a priorizar o seu Instituto e o fortalecimento do PT. Surfando na boa popularidade que tinha, junto com a alta popularidade de Dilma, viu o PT obter bons resultados nas eleições de 2012, inclusive com a eleição de mais um poste, Fernando Haddad, para a prefeitura de São Paulo. Ao mesmo tempo, aumentava sua presença internacional e era uma ponte com governos de países latino-americanos e africanos para a realização de obras, nestes países, por empreiteiras brasileiras financiadas pelo BNDES.

Felipão deixou o Palmeiras um pouco antes do rebaixamento, em 2012. Observadores já identificavam sinais de que o treinador estava ficando ultrapassado. Porém, o clamor popular o levou de volta à Seleção. Após as passagens malsucedidas de Dunga e Mano Menezes, Scolari era visto como o técnico capaz de “arrumar a Seleção” e conquistas o hexa, dessa vez dentro de casa, na Copa de 2014.

2014 também foi ano marcante para Lula. Em março daquele ano, começava a Operação Lava-Jato. Quase três anos depois, Lula é réu em 5 ações relacionadas à Operação e viu parte de sua popularidade corroer por conta das denúncias. Também naquele ano, nas eleições gerais, o desempenho de candidatos apoiados por Lula foi ruim. Alexandre Padilha, candidato ao governo de São Paulo, ficou em terceiro lugar. Dilma Rousseff foi reeleita, no segundo turno contra Aécio Neves, por uma ínfima diferença de votos. Era o início do calvário petista.

Ele seria pior em 2015. No segundo mandato, Dilma optou por conduzir um duro ajuste fiscal, após o aumento do gasto fiscal no primeiro mandato. Porém, no discurso de campanha, Dilma rechaçava o ajuste, o que acabou constituindo um estelionato eleitoral, que derrubou sua popularidade, culminando no seu impeachment, em maio de 2016. Em seu lugar, assumiu Michel Temer, que deu sequência ao ajuste, optando por um programa de reformas (fiscal, previdenciária e trabalhista), que visam recuperar as contas púbicas do país num horizonte de longo-prazo.

Aqui confundem-se as histórias de Lula e Felipão. Com o desemprego em alta, longe de uma retomada e com indícios fracos de crescimento da economia, a popularidade de Temer está arruinada. Ao mesmo tempo, Lula aparece liderando as pesquisas de intenção de voto para 2018, mesmo com todas as denúncias que enfrenta na Justiça.

O PT vê em Lula a possibilidade de salvação da legenda, a partir da retomada do governo federal. A população vê em Lula a capacidade de trazer os empregos e o crescimento econômico de volta, ignorando as circunstâncias e conjunturas diferentes da atualidade para 2002. O bom desempenho da economia foi possível graças a um excelente cenário externo, que fez aumentar o preço das commodities brasileiras. Com isso, o governo pode, ao mesmo tempo, fazer altos superávits primários e aumentar os investimentos públicos, sobretudo através de programas sociais. Associado à maior facilidade de acesso ao crédito e aumento real do salário mínimo, a sensação de bem-estar era geral.

Já na atualidade, o cenário é distinto. O crescimento mundial é bastante moderado, não havendo um novo “boom das commodities” no horizonte. A trajetória da dívida pública é ascendente, havendo pouquíssimo espaço para o aumento do gasto público, inclusive devido ao novo regime fiscal, que impõe um teto aos gastos públicos. Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias está alto, sendo quase inviável uma retomada do crescimento econômico pela via do consumo.

Caso esteja apto a disputar a eleição em 2018 e seja eleito, Lula estará diante de uma encruzilhada: ou dá continuidade ao programa de ajuste da economia, sendo possível pequenas alterações ou utiliza um novo programa, focado na geração de empregos com aumento dos gastos públicos. Se escolher o primeiro, Lula estará contrariando seu eleitorado, podendo ocasionar um cenário semelhante ao de 2015, repetindo a impopularidade e vendo aumentar a pressão pela sua saída ou renúncia.

Se optar pelo segundo, Lula pode colocar em xeque a estabilidade do país. O abandono da responsabilidade fiscal e a adoção de medidas, como o uso de reservas cambiais para financiar obras, podem aumentar ainda mais o Risco Brasil. Com isso, haveria uma disparada do dólar, perda de investimentos estrangeiros e deterioração das contas públicas aliada a um maior endividamento das famílias. Seria fazer como Felipão, que escalou Bernard, Fred e Hulk para enfrentar o forte meio-campo da Alemanha.

Felipão, já desgastado e sem a mesma qualidade técnica de jogadores, não repetiu o sucesso de 2002. Lula, também desgastado e sem as mesmas condições de seus dois primeiros governos, tem tudo para não ser bem-sucedido em um eventual retorno à Presidência. O resultado dessa volta pode ser um novo 7 x 1, dessa vez com consequências piores do que a simples perda de uma Copa do Mundo.

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